Um novo ano começa, e apesar de todos meus esforços para pensar em votos de recomeço ou dizer como tudo vai acabar sendo a mesma coisa que o ano passado meu primeiro post é a história da criação de um mundo. Um pequeno mundo de testes que pretendo usar ao testar um novo sistema de RPG (sim meus leitores, eu sou um temível jogador de RPG!). O texto não foi revisado e a história não passa de um esboço para trazer alguma profundidade a um cenário experimental, mas espero que aqueles poucos que venham a ler gostem da idéia.
História de Kratus:
Durante a criação do universo cada mundo foi entregue a um deuse, que ficou encarregado de sua criação, de seus moradores, de suas leis, enfim de todos os aspectos, importantes ou não, daquele lugar. Seus mundos seriam como seus filhos, e caberia a cada deus decidir como se daria seu desenvolvimento: liberdade, violência, conquista, conhecimento, tudo dependia do deus dono do mundo.
Mas mesmo entre os deuses existiam aqueles menores, mais inexperientes, mais infantis. Kratas, Krates, Kratis e Kratos eram novos deuses, crianças que ainda não eram consideradas maduras para terem seus próprios mundos.
Eram quatro irmãos, dos quais Kratas era a mais velha e por isso considerava-se responsável pelos outros três; vivia tomando decisões e tentando dar ordens aos mais novos, apesar de que em muitas das vezes ela mesma não sabia o que dizia. Mas apesar de sua natureza mandona era adorada por todos por ser carinhosa e atensiosa.
Krates era o irmão mais velho, e apenas um pouco mais novo que Kratas, era o mais maduro e sério, costumava ajudar Kratas a cuidar dos irmãos, mas, por não querer magoá-la, tentava não contradizer suas decisões e sim convencê-la de que havia soluções melhores a ser tomadas. Mantinha sempre um olho atento para as travessuras de Kratis, e sempre se esforçou o quanto pôde para proteger o pequeno Kratos.
Kratis era o irmão do meio, muito astuto, mas também muito rebelde, vivia pregando peças em Krates e Kratos, e muitas foram as vezes em que após alguma artimanha encontrou meios de incriminar Kratos perante sua irmã para poder escapar de suas penas. Sabia que se fosse pego Krates o puniria severamente, e que o tolo do Kratos nunca era punido por ser o mais novo, e usava isso para sua vantagem.
Mas de todos esses deuses, tão infantis, Kratis era aquele mais jovem. O pobre pequeno deus ainda pensava como uma criança, e errava como uma. Não era tão forte como Krates, nem tão esperto como Kratis, de fato ele sentia ciúmes da proximidade entre Krates e Kratas, e odiava a maneira como Kratis sempre o fazia de bobo. Ah, mas como ele amava Kratas, que aos seus olhos era a mãe que ele nunca teve!
No momento em que cada deus recebeu seu mundo esses quatro deuses se viram deixados de lado, eram imaturos e ainda não estavam prontos para possuir seu próprio mundo. Mas tal decisão não lhes agradou e assim decidiram lutar contra os mais velhos pela posse de seu próprio mundo. Gritaram, choraram e espernearam-se pelo grande salão onde ocorreu o encontro, numa grande batalha que nunca será lembrada, exceto apenas pelos deuses antigos que tentaram desesperadamente controlar as quatro pestes.
A batalha perdurou por quatro dias e quatro noites, Krates chorava por justiça, Kratas chorava por empatia aos irmãos, Kratis chorou por diversão, e Kratos, bem, ele chorou por não entender por que seus irmãos (e em especial sua irmã) choravam. Mas no fim da última noite seus esforços mostraram-se vitoriosos, e, admitindo sua derrota, o mais antigo entre os deuses concordou em presenteá-los com um belo planeta, mas como todos outros já haviam sido entregues aos seus donos os quatro irmãos concordaram em dividir um pequeno mundinho num canto isolado do universo. Seu nome, Kratus.
Eufóricos, os quatro irmãos prontamente empenharam-se a moldar seu novo mundo. Kratas, muito caprichosa, desenhou rios e árvores, esculpiu belas montanhas e vales e deu belas cores a cada canto que podia ver. Krates sabia de sua inaptidão artística e manteve-se ao lado de Kratas na tentativa de trazer alguma lógica ao seu trabalho, uma vez que sua irmã pensava apenas nas formas e na beleza de seu mundo e ignorava detalhes banais, como quando sua irmã desenhou uma geleira no meio de um deserto, ou quando os traços do curso de um rio acabaram apontados erroneamente para o topo de uma montanha e não para o oceano.
Kratis não era tão talentoso como sua irmã e seu orgulho não o deixou pedir ajuda, esforçou-se para desenhar lugares belos como os de sua irmã, mas não conseguiu e num ato de fúria e frustração destruiu o mais belo jardim que Kratas havia desenhado. Arrependido diante das tristes lágrimas de Kratas, Kratis mentiu, contando que Kratos derrubara acidentalmente algumas tintas sobre o jardim, e pediu a Kratas que não brigasse com o pequeno irmão. Depois deste incidente Kratis, triste, desnhou sua parte no mundo da maneira que conseguia, e sua parte, em contraste com a de Kratas e Krates, consistiu de desertos e geleiras desoladas, sem os requintes dos desenhados por sua irmã, ou os detalhes apontados pelo irmão.
E o pobre Kratos, depois de ser injustamente acusado por Kratis ele foi posto num pequeno pedaço do mundo onde poderia desenhar tudo do modo como desejasse, uma desculpa para tirá-lo do caminho para que não atrapalhasse mais. Kratos sentiu-se triste e solitário, e ele não sabia como devia desenhar, pretendia pedir ajuda para sua irmã, mas como ela estava triste com ele o jovem não teve coragem de procurá-la. E assim ele desenhou, como uma criança desenharia um mundo, sem a ajuda de seus irmãos, o seu pequeno espaço naquele pequenino mundo.
Quando terminaram de desenhar o mundo, por um instante os irmãos se viram satisfeitos, mas logo perceberam o quão sem graça era um mundo sem habitantes, e olhando uns para os outros decidiram moldar seus habitantes. Construíram moldes para cada ser e foram replicando-os com massa de modelar. Kratas, com sua mente de menina, criou seres lindos e fofinhos, coelhos, pássaros, peixes coloridos, todos que sua mente conseguiu lembrar (e foram muitos). Krates preocupou-se (como sempre) com o equilíbrio e a ordem, e pediu para a irmã preparar os moldes de animais domésticos, como vacas, cavalos e cachorros. Kratis preocupou-se apenas com os seres que achava interessante e, lembrando dos acontecimentos passados, esforçou-se para fazer moldes o mais perfeitos possível, e criou tigres, ursos, tubarões. Já o pequeno Kratos, ainda com medo de falar com sua irmã e magoá-la ainda mais, preparou seus moldes sozinho, e uma vez mais seu trabalho mostrou-se digno de uma criança pequena. Tentou recriar os personagens infantis que ele tanto gostava, seres mágicos de contos de fadas, mas todos terminaram como formas distorcidas da idéia original. Mas ainda assim, aos olhos de seu criador, estavam perfeitos.
Com seus moldes prontos os irmãos começaram a povoar o mundo, multiplicando as pequenas criaturas por todos os cantos, espalhadas onde cada um gostaria que vivessem, apenas Kratos manteve-se fechado no terreno que desenhou. E vendo todas aquelas formas de vida andando por seu mundo, os irmãos perceberam que algo ainda faltava, todos aqueles seres viviam de forma simples, e o mundo continuava sempre o mesmo. E eles decidiram criar, cada um (apesar de não haver conversado com Kratos sobre isso) mais um ser, e esses novos seres teriam a capacidade de se apaixonar, de aprender, de brigar e de brincar.
Kratas criou seres belos, românticos e inteligentes, que adoravam todas as coisas que ela criou, por adorar rosa ela pintou sua pele num tom rosado claro e os cabelos num amarelo brilhante como o sol. Seus olhos brilhavam num azul tão belo como o céu e tinham orelhas grandes como coelhos.
Krates pintou seus seres num tom também claro, mas seus cabelos eram escuros, os fez fortes para sobrevirem sozinhos e inteligentes para se autogovernarem, eles aprenderiam a interagir com tudo o que foi criado e a viver utilizando aquele meio. Não eram tão belos quanto os de sua irmã, mas isso não lhe importava em nada.
Já Kratis criou seus seres esguios e tentou fazê-los belos, certamente ficaram melhores que os de Krates, mas não tão belos quanto os de Kratas. Pintou-os num tom claro, semelhante aos de seu irmão, mas quando os colocou no espaço que havia criado achou difícil vê-los, tão claros, nas areias amarelas e geleiras brancas que havia criado, e pintou todos novamente em tons escuros e azulados. Seus seres eram passionais e fortes, deixavam-se guiar muito facilmente pelos sentimentos e precisavam ser bastante fortes para sobreviver no ambiente hostil que Kratis havia criado anteriormente.
Kratos foi saber já muito tarde dessa decisão, desses novos seres, e precisou fazer os seus às pressas. Criou alguns moldes, mas nenhum ficou bom como o de seus irmãos. Eles não pareciam fortes e o jovem não sabia como os fazer inteligentes, ele não entendia de sentimentos, então os ensinou a brincar, ele brincou com sua criação e cuidou deles como sua irmã costumava cuidar dele antes de se mudarem para Kratus.
Quando tudo já estava pronto os três irmãos lembraram-se de seu irmão caçula e foram olhar como andava o espaço que lhe foi dado, mas o que viram não lhes agradou em nada. Paisagens distorcidas e criaturas bizarras conviviam com seres estranhos e feios, não havia lógica ou beleza, apenas os rabiscos de uma criança desajeitada.
Diante de tudo aquilo, Kratis sentiu-se culpado, vendo que o pequeno irmão não pediu ajuda porque ele o incriminou, e numa tentativa de reparar seus erros convenceu Kratas e Krates de corrigir o trabalho do irmão. Eles procuraram o pequenino e pediram que explicasse cada aspecto de seu reino, cada criatura, cada planta, e o pequeno Kratos ficou feliz ao ver que seus irmãos não estavam mais tristes com ele, e que haviam gostado do seu pequeno reino.
Naquela noite, mesmo sabendo que a culpa não era sua, Kratos decidiu se desculpar com os irmãos. Já era hora de dormir, mas ele levantou e foi procurar sua irmã Kratas. Ela estava desperta conversando com Krates e Kratis, Kratos escondeu-se e escutou a conversa, como planejavam apagar seu pequeno reino e suas criaturas para redesenhá-los. Krates iria convidar o pequeno Kratos para um passeio para distrair seu irmão, enquanto Kratis apagaria o reino e roubaria os moldes de suas criaturas, e rapidamente Kratas redesenharia tudo, e deixaria novos moldes no lugar dos antigos. Kratos ficou furioso e fugiu para seu reino, juntou seus moldes e escondeu-se junto com todo seu reino embaixo da terra.
Na manhã seguinte os três irmãos não puderam encontrar Kratos em lugar algum, nem suas criações. Eles procuraram por muito tempo e nunca o encontraram escondido embaixo de seus próprios narizes, solitário, cuidando de sua criação como nunca ninguém cuidou dele.